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Por favor não contes a ninguém. Este é um segredo que tenho muito bem guardado e prefiro que continue assim.
Há três meses, quando cheguei ao Porto, esforcei-me logo por retomar as minhas rotinas de higiene mental e corporal. Uma delas começou a preocupar-me mais: onde - raios - correr nesta cidade? Fui buscar um mapa a uma loja Andante e pus-me a estudar percursos possíveis. A hipótese de longe mais óbvia era o fantástico Parque da Cidade: claro que era o melhor. Experimentei ir até lá a correr mas o resultado não foi animador: demorei precisamente 23 minutos a chegar, o que significava que só com ida e volta despenderia de cada vez 46 minutos, sem chegar a entrar no parque. Ou seja, pouco menos que o tempo que costumo correr. Tive que a rejeitar.
Apesar de tudo, essa experiência teve um benefício: relembrou-me o gosto de correr em percursos longos, sem grandes interrupções, daqueles que permitem desligar a cabeça sem ter que andar constantemente a corrigir a rota ou a contornar obstáculos. Descobri na Avenida da Boavista - a avenida mais comprida da península, diz-se por aqui - uma óptima pista de atletismo. Durante mais de um mês dei-me por satisfeito: saía de casa, chegava à Rotunda da Boavista e lá ia eu, avenida abaixo, até ao Castelo do Queijo. Depois, avenida acima, era só regressar pelo mesmo caminho.
No entanto, havia um problema que me incomodava: de cada vez que regressava dessa volta, chegava com as costas doridas e a sensação prolongava-se por dois ou três dias. Era tão incómodo que não o podia ignorar. O piso duro do alcatrão e do cimento deixava-me todo estragado. Um dia, mais uma vez a correr até à rotunda, não sabia por onde ir. Bem tinha olhado o mapa em busca de inspiração, bem tinha dado voltas à cabeça a imaginar o sítio ideal para correr nesta cidade. Sem pensar, atravessei a rotunda para o lado interior. E aquele momento foi mágico: quase como se tivesse atravessado o Mar Vermelho.
De repente, dei por mim a correr em terra batida - um piso muito querido pelos corredores do mundo inteiro. Continuei a correr por dentro da rotunda e aquilo continuava, continuava, todo o perímetro da Rotunda da Boavista era do melhor para correr: uns 600 metros de pista como nunca vi em lado nenhum!
Acredites ou não, desde então "assinei" pelo "Clube de Atletismo da Rotunda da Boavista" e é lá que vou dar dez voltas, duas vezes por semana. Quem diria que aquilo com que andava a sonhar estava tão perto?! Não só faço um pouco de exercício físico como me divirto a cronometrar os tempos que faço. Estes são os que o meu relógio registou na última sessão: Volta 1 - 3'50''; 2 - 3'10''; 3 - 3'04''; 4 - 3'02''; 5 - 3'01''; 6 - 3'00''; 7 -2'59''; 8 - 2'59''; 9 - 2'56''; 10 - 2'36''.
É, sem dúvida, a melhor pista de atletismo do Porto. É por isso que te peço que não digas a ninguém. Não vá aquilo tornar-se percurso habitual dos joggers desta cidade e tornar-se tão mau como o trânsito caótico que anda à volta da minha pista.
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